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quinta-feira, 17 de março de 2011

A Fonte: 1º capítulo




*Fonte: palavra do jargão jornalístico que se refere à pessoa de confiança de um jornalista que lhe passa informações confiáveis ou especialista em um assunto específico que desempenha papel fundamental na elaboração de matérias técnicas. Normalmente são mantidas em extremo sigilo, sobretudo quando se tratam de fontes que detêm informações polêmicas ou são portadoras de denúncias graves.
Diz-se que, sem boas fontes, não há jornalismo.


Marcelo tomou o último gole de café no copo plástico e conferiu que os grãos da cafeteira elétrica que turbinava o trabalho de toda a redação durante o dia haviam acabado.
Pudera. Eram dez e meia de sexta, o jornal já fechara, e ele ainda perambulava pela redação, vez ou outra argumentando rispidamente com o editor de sua seção, Política, recarregando os porquês de ele segurar a capa do caderno, prometendo-lhe um furo sensacional.
- O cara disse que me ligava às dez e quinze. Vamos esperar, Teodoro – respondia a cada vez que seu superior esbravejava, dizendo que o editor-chefe estava no seu saco e que a edição tinha que ir para a rua.
Marcelo acendia um cigarro, mesmo que a placa de proibido fumar pairasse bem defronte à sua mesa. Era o único que fumava dentro da redação, recusando-se a usar a área de fumantes – o fumódromo, como chamavam os mais maldosos. Era o jeito de espantar o estresse e a tensão.
Conferiu o maço. Era o último Marlboro do dia. Precisava passar no bar antes de ir para casa comprar um novo maço.
- Furo o cacete, Kovich – berrava Teodoro todas as vezes que desligava o telefone. – O Hélio está no meu saco dizendo que tem que rodar!
Hélio era o gerente industrial da gráfica do jornal. Cara que tinha tinta nas veias, filho de um grande gráfico do Distrito Federal e que tinha aberto sua própria empresa depois que os negócios de sua família foram dilapidados por seus outros quatro irmãos.
Acabou fechando sua gráfica também e entrando para o grupo do Diário da Esplanada, um dos mais jovens e pujantes veículos impressos de Brasília e Cidades Satélites.
- Ele vai ligar, cacete – respondia Marcelo.
- Vai? – Teodoro repetia sempre o mesmo gesto quando era contrariado. Soltava seu corpo de quase cem quilos sobre a cadeira de encosto reclinável e suspirava como um porco agonizante. – Acho que você está perdendo o faro, cara. Está dando crédito para um tal Ermínio, que você não sabe nem se se chama assim, e que disse ter uma bomba sobre um famoso Senador. E justo o Senador Paiva. O cara diz que vai ligar, que a bomba é do caralho, e some. E eu estou sendo comido vivo apostando no seu feeling. Vá à merda!
- Vá à merda você! – berrou Marcelo, no mesmo tom. Depois, abaixou a cabeça, ficou olhando a ponta do sapato 752 Vulcabras, que usa desde sempre. Era sua técnica para se acalmar, retomar o controle da situação.
- Olha, Teo, sei que estou pedindo demais. Sei que já segurou minha barra muitas vezes...
- Muitas vezes? Quantas nesses últimos quinze anos?
- Eu sei... – Marcelo apagou o toco de cigarro no copo de café ainda úmido. - ... eu sei, e te agradeço. Mas tenho faro, você sabe. É quente. Vai ser bomba.
- Se meu rabo assar, Kovich, o seu assa junto. Está ouvindo? Desta vez, você se ferra comigo! – disse Teodoro, ameaçador, com o dedo em riste na cara de Marcelo.
Agora era Marcelo que voltava para sua mesa. Dez e quarenta. Sua fonte, sua fonte quente que lhe garantiria um furo, estava dando para trás.
Pela manhã, logo depois de ter fumado seu primeiro cigarro do dia, o telefone de sua mesa tocara. Janaína lhe passara uma ligação de um tal de Ermínio, somente Ermínio, que queria falar com o jornalista Marcelo Kovich. Ele.
Em tantos anos de jornalismo impresso, havia ficado escolado em diferenciar malucos que queriam aparecer em cima de celebridades e ganhar seus cinco minutos de fama, e fontes realmente quentes, que trazem furos importantes.
Atendeu o tal Ermínio meio contrariado. Começar o dia com alguém lhe descarregando bobagens como óvinis, mulheres de duas cabeças, lobisomens e outros seres fantásticos não era bom presságio.
- Senhor Marcelo Kovich? – anunciou uma voz fraca, tímida, do outro lado da linha. Tinha um timbre agudo, o que levou várias vezes Marcelo a suspeitar de que estava falando com uma mulher, e não um homem.
- Ele – respondeu, desanimado. – Com quem eu falo?
- Quem eu sou não é muito importante, senhor Kovich. Mas pode me chamar de Ermínio. Só Ermínio.
Esse nome não lhe saiu da cabeça durante todo o dia.
- Em que posso ajudá-lo, senhor Ermínio. Gostaria que fosse breve, seja qual for o assunto, porque tenho várias ligações para fazer ainda.
- Mas acho que o que tenho para lhe dizer é muito importante, e vai valer seu tempo. É sobre o Senador Paiva. Acho que o senhor como jornalista experiente em coberturas no Planalto, sabe de quem estou falando.
Como não? O Senador Romero Paiva fora por duas vezes canditado à presidência do Senado e era um dos alicerces do atual Governo na Casa. Nunca ocupara chefia de nada, mas sempre optara por atuar nas sombras. Era aquele tipo de poder oculto sem o qual nenhum político que dá a cara para bater em cargos de chefia do Executivo e Legislativo se sustenta.
Se minha fonte quase anônima queria despertar minha atenção, estava no caminho certo.
- Ainda está aí, senhor? – chamou Ermínio, frente ao silêncio de Marcelo. Nesse momento, o jornalista pôde notar uma entonação meio subserviente, o que denotava que o seu interlocutor deveria ser algum funcionário de escalão menor. E, se o que dizia era verdade, deveria frequentar os corredores do Congresso, uma vez que tinha informações “quentes” sobre um alto Senador. Provavelmente algum assessor de gabinete, ou mesmo um membro apadrinhado do partido do Senador Paiva. Também notou um sotaque puxado, tipicamente nordestino, o que indicava que provavelmente vinha da mesma região de Romero Paiva, que era cearense.
- Estou sim. Pode falar – pediu Marcelo, puxando para junto de si um bloquinho de anotações e pegando uma caneta.
Ermínio pigarreou.
- Prefiro falar pessoalmente.
Marcelo sentiu sua adrenalina brochar. O homem tinha conseguido segurar sua atenção e, agora, no clímax, dizia que queria conversar pessoalmente.
- Nada feito, amigo – cortou Marcelo. Sua experiência como jornalista lhe apontavam sempre para duas coisas: uma, proteger sua fonte, principalmente aquelas que eram valiosas e lhe garantiam furos; a segunda, nunca entregar nada de mão beijada. Ou seja, sua coluna no jornal tinha um preço, um bom preço, do tamanho de sua vaidade, e mesmo que a informação que o tal Ermínio tinha a lhe passar fosse quente, precisava de alguma segurança. E isso significava uma prévia da história que tinha a lhe contar, algo que pudesse ser publicado como introdução de uma grande reportagem.
- Veja, entendo, mas é um assunto delicado...
- Não importa.
Marcelo não queria que desligasse o telefone, mas precisava ser duro, como um bom negociante que, antes de aceitar diminuir o preço de um produto, dizia que não poderia tirar nada do valor, que era aquilo e pronto, com o objetivo de verificar até onde o cliente pretendia chegar.
- Olha, senhor Ermínio, ou seja qual for seu nome, porque suspeito que esteja tirando com minha cara. Mesmo assim, estou te dando trela. Porque algo no meu faro diz que pode sair alguma coisa importante do que está me dizendo. Mas... mesmo assim, o senhor diz que não pode me falar nada? Pelo que me lembro, foi o senhor que ligou para mim. Nem mesmo te conheço. Então, se não tem mais nada a dizer, vou desligar e cuidar de minha vida, porque...
- Espere – o homem pareceu aflito. – Não desligue.
Marcelo ouviu um suspiro longo do outro lado. Depois barulho seguido de motores de carro, o que indicava que o sujeito deveria estar falando de um celular ou de um telefone público da rua.
- Está bem. O senhor precisa confiar em mim, né? É um jornalista famoso...
“Se fosse famoso, não estaria enfiado nesta merda de jornal, vivendo esta merda de vida. Estaria tomando margueritas em algum lugar da América Central ou Caribe”, pensou Marcelo, sem dizer nada, no entanto.
- É uma bomba. Deveria ficar calado, mas não posso... mas é delicado também, entende? Tem muito material... e minha vida pode se foder por isso, entende?
- Todos dizem isso... – Marcelo decidiu esticar ainda mais a corda.
- Você conhece o Senador Paiva? Sabe do poder dele?...
- Hum... – o jornalista acendeu um cigarro e olhou para o relógio. Um belo rolex que tinha ganho de Emanuela. – Todo mundo nesta merda de cidade conhece ele. Acho que no país também. É carrapato de todo sangue que cheira a poder. Mas parece bom moço. Bem votado, terceiro mandato. Influente.
Silêncio do outro lado. Marcelo temeu por alguns segundos que Ermínio tivesse desligado, mas, antes que o chamasse, a voz ressurgiu, mais decidida.
- E se eu dissesse que ele está envolvido em um crime?
Marcelo gelou. Gelou por dois motivos: pela possibilidade de estar realmente diante de um engodo e, nesse caso, ter desperdiçado minutos preciosos de seu dia de trabalho, ou pelo fato de essa denúncia ser verdadeira, o que lhe garantiria caminhos amplamente abertos em toda a mídia do país.
- Que tipo de crime?
- Morte. Assassinato.
Agora era o jornalista que se calava. Estudava seus próximos passos.
- Isso é on ou off? – perguntou, usando o jargão jornalístico que se referia a uma afirmação ser publicável ou não. Claro, o peso entre o certo ou errado, entre respeitar ou não essa baliza que conduzia o trabalho de profissionais de imprensa, variava de jornalista a jornalista. Mas Marcelo se orgulhava de valorizar suas fontes. Aliás, por vezes pensava que eram as únicas coisas que realmente valorizava na vida ácida que tinha.
- On – respondeu de pronto o homem, mostrando-se conhecedor do jargão. – Mas só isso que lhe disse.
- Por que está confiando em mim?
Ele não respondeu. Marcelo tentava entrar na próxima fase desse jogo, como se aquele diálogo fosse um daqueles jogos que seu filho Murilo jogava em frentre à TV e que lhe ocupava grande parte da tarde.
- Porque você é famoso. Porque conheço muita gente que conhece o senhor. E porque sei que é ambicioso o suficiente para não jogar seu nome na merda. Por isso, nem penso em blefar, senhor Kovich.
Ele estava certo. Não respeitava suas fontes porque era ético, mas sim porque publicar matérias que se mostravam corretas, bombásticas, que desvelavam fatos que autoridades não podiam negar era o seu segredo de sucesso.
- Está certo – Marcelo usou uma entonação de quem se dava por vencido. – Mas quero garantir o meu. Primeira página do cardeno de hoje, com garantia de manchete de capa na edição de domingo.
- O que vai publicar?
- O que me disser. E me autorizar.
Era uma boa estratégia. Colocar nas mãos das fontes um certo poder, fazer com que se sentissem importantes, se envaidecessem. Isso geralmente garantia excelentes histórias, muitas vezes amizades pagas com viagens e dinheiro, outros vezes com furos que arrasavam reputações.
- O Senador, senhor Paiva, está envolvido em assassinato. Isso eu posso comprovar.
- Vou precisar das provas.
- Claro. Não estou estúpido senhor Kovich. Tenho tudo em mãos. Mas só o senhor, eu e Deus sabemos disso.
Ele citou Deus. O que queria dizer que era um excelente ator dramático ou realmente estava com medo de morrer devido às informações que tinha.
- Cito o Senador? Pode me mandar essas provas?
- Te entrego pessoalmente.
- Quando?
- Você não vai publicar o nome do Senador... ainda?
- Não. Preciso de provas. Como você disse, minha reputação está em jogo. Não posso afirmar algo que não posso provar.
- O senhor é mesmo um bom profissional, senhor Kovich.
O elogio quase fez Marcelo rir. Nem mesmo ele sabia o que tinha de verdade correndo em suas entranhas, o que se escondia de mais negro.
- Ponha aí... – disse Ermínio, como se, agora, realmente detivesse todo o poder. – Membro importante do Senado pode estar envolvido em assassinato.
- Assim? Simples? Sem provas?
- Já vi isso outras vezes, senhor Kovich. Sou ex-boia fria, ex-pau de arara, mas sei ler e leio seu jornal. E outros. Sei que vocês usam esta frase... “Fontes que não quiseram se identificar...”.
- Vou ter que comprar uma briga com meu editor para publicar essa merda.
- Sei que o senhor pode. E lhe dou garantia de que a coisa não para aí.
- A história vai ter que continuar, o senhor sabe... quando vai me entregar o restante das provas? – perguntou Marcelo, acendendo seu segundo cigarro do dia.
- Ligo para o senhor hoje, lá pelas dez e quinze da noite. Vou estar livre, sem ninguém por perto. Sem suspeitas. O senhor pode me atender?
- Vou estar aqui, neste mesmo número.
Fim de conversa.
Desde então, Marcelo esperava pelo retorno do tal Ermínio, que não veio. Estava convencido de que tudo não passava de uma obra de ficção de um candango criativo, que quase lhe ludibriara. E fez com que perdesse pontos valiosos com Teodoro, com quem já tinha um déficite enorme desde que lhe emprestara dinheiro para pagar as dívidas de seu divórcio.
Saindo do jornal, perto das onze, ouvindo do estacionamento as rotativas trabalharem a todo vapor para que a edição de sábado saísse para as bancas às três da manhã, amaldiçoou a sua ingenuidade. Estava realmente perdendo o feeling, o faro.
Por sorte, Teodoro não publicou a denúncia como havia sido acertado com sua fonte de merda.
Destravou a porta de seu Polo preto, arrumou o retrovisor e tirou o celular do bolso da camisa.
- Alô - uma voz feminina atendeu.
- Ainda está acordada?
- Marcelo? Fiquei te esperando...
- Rolos. Fiquei preso no jornal. Queria te ver.
- Pode vir. Esquento o macarrão.
- Não precisa. Estou sem fome... pelo menos, fome de comida.
- Estou te esperando de outro jeito...
- Quinze minutos estou aí – confirmou Marcelo e, antes de desligar, acrescentou: - Ah, você tem uma caixa de Marlboro para me emprestar?

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